Terceiro Encontro Internacional
O Espaço como Negação do Tempo na Crise do Capital
Data: 28, 29, 30 de setembro de 2026
Local: Lisboa, Salão Nobre da Universidade Aberta (Palácio Ceia)
Informações:conferencaespacoetempo@gmail.com
Línguas: Português e Espanhol

Apresentação
Hoje, mais do que nunca, a análise da atual fase de acumulação capitalista não pode ignorar as desigualdades espaço-temporais que refletem e incorporam as desigualdades sociais. A globalização neoliberal aumentou assustadoramente todas as formas de desigualdade (social, espacial, económica, de género, de raça, etc.), e a compreensão destas desigualdades encontrou fundamentos teóricos úteis na geografia humana de inspiração marxista. Há muitos novos desenvolvimentos na atual fase de acumulação capitalista do século XXI, vulgarmente chamada “globalização”. Mesmo que aceitemos este termo, ainda que provisoriamente, o que entendemos por “globalização” é, na verdade, uma condição do mundo atual. É a condição em que nos encontramos e que redefine não só a soberania estatal e o mercado, mas, a um nível mais profundo, as próprias noções de espaço e tempo. O modo de produção capitalista entrelaçou estas duas categorias de uma forma muito particular, e é a partir deste ponto que pretendemos retomar os trabalhos — neste terceiro encontro internacional sobre o conceito de “espaço e tempo na crise do capital” — de uma rede de investigadores que se reúne há uns anos, tendo construído conexões entre Chile, Brasil e Portugal.
Segundo o geógrafo humano David Harvey (1989), o espaço e o tempo foram “comodificados” pela modernidade capitalista e, portanto, já podemos falar de uma particular dinâmica global definida como “compressão do espaço no tempo”. O espaço é comprimido na velocidade do tempo, na capacidade capitalista da ação humana de conectar quase simultaneamente diferentes espaços por meio da celeridade do tempo. Os meios de transporte e de comunicação geram custos e criam mais-valia; fazem parte do processo produtivo. As mercadorias não só precisam de ser produzidas, como também precisam de chegar ao mercado e encontrar os consumidores. Este processo deve ocorrer o mais rapidamente possível. Por esta razão, o espaço, por exigir tempo para ser percorrido, é um obstáculo que o capital necessita de ultrapassar. Assim, as estradas e autoestradas que atravessam a nossa paisagem devem ser vistas como a continuação dos tapetes transportadores fora da fábrica. A velocidade dos camiões carregados não é determinada pelo capricho do condutor, mas é regulada de forma muito mais rigorosa pela intensidade do trabalho socialmente necessário. O capital exige infraestruturas e meios de comunicação cada vez mais rápidos, pelo que não só as mercadorias, mas também, e sobretudo, a mercadoria da força de trabalho, necessitam de ser capazes de comunicar e de se deslocar rapidamente; o espaço é distorcido pelo tempo. A paisagem capitalista é composta não só por metros, caminhos de comboios e autoestradas, mas também por indivíduos que, enquanto são transportados de um local de trabalho para outro, continuam a trabalhar com um portátil no colo ou a responder ao último e-mail no seu smartphone. O tempo de deslocação, que é variável, é comprimido ao ser entrelaçado com o tempo de trabalho. Por outro lado, onde os salários precisam de ser mantidos baixos e a força de trabalho controlada, em vez de acelerar o transporte, o que exigiria um elevado poder de compra, recorre-se ao controlo do espaço e do tempo dos trabalhadores, é àquela dinâmica específica que afecta o Sul Global e que Ruy Mauro Marini definiu como a “superexploração do trabalho”.
Estes espaços homogeneizados, por um lado, e fragmentados, por outro, convertem-se em mercadorias transacionáveis, constituindo um sustentáculo do capitalismo e da globalização. O conceito de Harvey pretende dar conta de um processo que altera a relação entre o espaço e o tempo, nomeadamente através da inovação tecnológica e do mercado global. Segundo Harvey, a compressão está ligada ao aumento da velocidade associado ao desenvolvimento dos meios de transporte e de comunicação, porque a experiência do espaço depende, na maioria, do tempo necessário para o percorrer. Este debate foi também retomado por outros autores como, por exemplo, Neil Castree (2009), Doren Massey (2005) ou na antologia de textos organizados por Massimiliano Tomba e Giovanna Vertova (2014). Por um lado, já Karl Marx nos Grundrisse percebeu este problema escrevendo que o espaço é destruído por meio do tempo (1974, p. 161). Por outro lado, Henri Lefebvre (1992) nos últimos dez anos de vida dedicou-se a “ritmanalise”, ou seja, ao estudo dos ritmos e dos tempos do capitalismo e da vida quotidiana organizada sob o jogo da transformação da modernidade capitalista.
Resumindo: Qual a lógica espacial e temporal tipicamente capitalista da modernidade? E, em paralelo, quais os limites e o alcance da experiência espacial e temporal da modernidade?
Propõe-se que os trabalhos desenvolvam a problemática do “espaço” e do “tempo” no contexto da globalização capitalista, quer através de debates teóricos enquadrados na teoria social e na história das ideias, a um nível macro, quer através de estudos de caso, a um nível micro, que contribuam para clarificar estas categorias nas dinâmicas contemporâneas atuais.
Áreas temáticas do encontro:
1. Colonialismo, neocolonialismo e imperialismo.
2. Capital especulativo, financeirização e geopolítica
3. Arquitetura e planeamento urbano.
4. Ecologia e teoria crítica.
5. Estética e crítica da vida quotidiana.
6. Educação/escolarização e neoliberalismo em tempos de barbárie.
7. Teoria do conceito de espaço e tempo na crise do capital.